Projeto de Escola de Artes para Cunha
Por Alberto Cidraes
1. A ideia
Sem entrar nos antecedentes históricos, podemos dizer que Cunha
possui hoje como residentes, uma pleiade de artistas, intelectuais e
profissionais liberais que de uma forma ou de outra contribuem para
a identidade e valorização cultural da cidade. Esta contribuição
se processa de maneira espontânea e não organizada e por
isso mesmo nem sempre a cidade como um todo retira disso o máximo
proveito.
Cunha possui também algumas tradições na área
artesanal, algumas delas em extinção. São soluções
práticas para problemas de arquitetura e vida doméstica
que sem proteção tendem a ser ultrapassadas por equivalentes
industriais. A exceção é a manufatura do tijolo
comum que em Cunha vai resistindo ao rolo compressor do "desenvolvimento".
Do meu ponto de vista, neste momento histórico, a maior carência
do Brasil se situa na área da educação. Esta é
importante não só para a população em si
mas para o próprio país como entidade competitiva na área
internacional.
Cunha é um exemplo de Brasil como terra de clima privilegiado,
paisagem ecológicamente preservada e um povo engenhoso que faz
das fraquezas, forças, e consegue sobreviver, mantendo o otimismo,
em condições que levariam outros povos ao desespero. Com
uma arquitetura "ad hoc" Cunha consegue não ter favelas.
No Brasil de agora, com fome de renovação e, acredito,
à beira de uma renascença, qualquer iniciativa educacional
bem estruturada está fadada ao sucesso.
Cunha possui também uma juventude cujos talentos e energias esperam
apenas uma oportunidade de desenvolvimento. Além disso recebe
uma população visitante atraída pelo ambiente rural
e natural, gastronomia e cerâmica. Estas duas populações,
mais os formadores acima mencionados, por si só constituem material
humano suficiente para a geração de uma escola.
O mundo em que vivemos precisa de novas ideias que poderão materializar-se
em projetos piloto. As instituições tradicionais, rígidas
e burocratizadas estão esgotadas, estagnadas e à beira
da falência. O Brasil possui a energia e o jogo de cintura para
criar e até exportar novos modelos de contrato social.
2. O curriculo
As considerações acima expostas me levaram há já
algum tempo à conclusão de que a criação
de uma Escola de Artes em Cunha seria um projeto relevante que gostaria
de assumir como missão.
A ideia é estruturar um curriculo que cubra um leque amplo de
disciplinas, dando preferência a atividades mais ligadas ao local.
A Cerâmica pela sua presença já histórica
em Cunha será o maior campo de pesquisa, embora a ideia não
seja criar uma escola de cerâmica no sentido tradicional mas utilizar
a maleabilidade do barro e a variabilidade do processo de forma experimental
com apoio dos já existentes ateliers.
Na outra ponta do expectro está o Design Digital utilizando a
tecnologia como ferramenta da criação e ao serviço
desta.
A Arquitetura, atividade omnipresente em Cunha de forma desordenada
e espontânea, com exceção de alguns arquitetos e
construtores que labutam pela manutenção de uma identidade
edificada do municipio, será também uma das principais
areas de pesquisa. Ela será abordada como disciplina de design
mas intimamente ligada ao processo de construção com especial
atenção às possibilidades dos materiais e processos
locais.
O Desenho como disciplina de apoio a todas as outras da arte e design
terá um papel fundamental na base do curriculo.
As disciplinas de Humanidades tais como Pensamento Crítico, Psicologia
da Arte e do Design, História da Arte e do Design, Linguas Estrangeiras,
associadas ou em separado farão também parte fundamental
do curriculo básico.
A Ecologia no que se pode relacionar com o processo artístico,
também. A utilização de materiais resultantes do
processo de renovação física das plantas ou da
reciclagem do cotidiano humano, dentro de uma perspetiva correta pode
ser uma experiência ilustrativa do desenvolvimento sustentável
expressa através de propostas de arte visual.
O projeto está também aberto para as artes do som e do
espetáculo, sobretudo em parceria com outras entidades.
3. A estrutura
A maneira como todos os elementos serão combinados para formar
uma entidade, a escola, terá que ser aberta, flexível,
mas também convenientemente estruturada e responsável.
Vejo o início do funcionamento da escola como uma colagem de
projetos pontuais, temáticos e focalizados que pouco a pouco
poderão desaguar num curriculo mais estruturado com cursos de
2 anos em regime de meio internato, dos quais dou exemplos: Arquitetura
e Construção, Design de Reciclagem, Design Natural, Cerâmica
de Expressão, Relações de Trabalho nas Artes, Arterapia,
etc.
No início pessoas serão convidadas para ministrar cursos
e oficinas de curta duração numa sucessão de eventos.
Poderão também ser realizadas exposições
ou acontecimentos de outro tipo, espetáculos, conferências,
com um esforço de tirar o maior partido possível do espaço
em termos culturais, sem ociosidade temporal ou espacial.
O corpo docente virá preferencialmente de Cunha ou de pessoas
a ela ligadas, não por discriminação mas pelo engajamento
que naturalmente terão na cidade como projeto cultural. Terá
um núcleo central que trabalhará em equipe e coordenará
as atividades académicas.
O corpo discente como objetivo, terá duas origens opostas mas
complementares: os alunos de Cunha de baixo poder aquisitivo, frequentarão
com bolsa de estudo, atribuída após avaliação
do candidato. Outros alunos pagarão a frequência da escola
que deverá ter a auto-suficiência financeira como meta.
O convívio entre alunos vindos de extratos socio-culturais diversos,
nas relações de trabalho será um dos pontos sobre
os quais incidirá a experimentação pedagógica.
Finalmente considero fundamental que a escola se abra em alternância
rotativa para o exterior do Brasil, aceitando alunos e professores estagiários
de variadas origens nacionais e geográficas, divulgando assim
tambêm Cunha no estrangeiro como o oásis de hospitalidade
e cultura que tende cada vez mais a ser.
4. Desenvolvimento
Pretende-se criar uma escola que seja competitiva a nivel internacional,
pela inovação não tanto no uso de tecnologias de
ponta como na abertura da sua filosofia. Ensinar a pensar é tão
ou mais importante que ensinar a fazer; uma escola de artes que seja
também uma escola de democracia, aprendida nas relações
de trabalho entre professores e alunos, alunos e alunos, professores
e professores.
A localização rural e regional, não só não
é um obstáculo ao cosmopolitismo universalista, como nos
tempos que correm representa uma alternativa à cidade (crescentemente
tornada um câncer ambiental), e de onde novos centros de sabedoria
podem surgir. Na era da comunicação cibernética
rápidamente a existência da escola pode ser divulgada para
o mundo. É só uma questão de investimento em eficiência.
A escola deverá ser uma testa de ponte de Cunha como entidade
cultural com vocação internacional.
Uma frente deve ser aberta na parceria com escolas superiores e pós-secundárias
não só brasileiras. Projetos poderão ser desenvolvidos
em colaboração nas mais variadas formas.
A escola deverá também ser uma unidade produtiva, nas
áreas de design, cerâmica, construção arquitetonica
e projetos ambientais. Tudo nela deve apontar para a autosuficiência
financeira. O estágio de alunos em ateliers, obras e reservas
ambientais deverá ser parte do curriculo.
Especial atenção será dada à harmonização
das relações entre a administração e os
corpos docente e discente, substituindo burocracia por organização
e instilando transparência democrática na diversificação
de funções.
Os alunos do segundo ano terão como parte do curriculo o exercicio
da função de assistentes de ensino para o primeiro ano.
5. Ramificações
A colaboração com outras entidades como ateliers, ONGs,
o poder público, etc, deverá ser feita sem perder de vista
o objetivo principal da escola, formar artistas, designers e formadores
de opinião dentro do campo de ação das artes visuais.
6. Cursos
Em relação aos cursos oferecidos, não acredito
que seja possível abrir a escola com umprograma de cursos regulares
logo de início. Haverá com certeza umperíodo de
lançamento com eventos sazonais e cursos depequena duração.
Quando digo que não estou pensando numa escolatécnica,
não significa que não será passada informação
técnica aos alunos, mas apenas que será dada prioridade
à colocação conceitual, filosófica, social,ecológica
e artistica das questões. A técnica é apenas a
forma prática de resolver os problemas de arte ou design depois
de estes serem equacionados. Também, embora técnicas e
processos consagrados existam em todos os campos do design, a criatividade
e a invenção atuam também no sentido de descobrir
novas formas de fazer, isto é, novas técnicas.
Numa escola meramente técnica, as formas habituais de fazer as
coisas nunca são questionadas e os objetivos não sofrem
escrutínio. A escola deve ser uma instituição de
pesquisa e tudo, incluindo a técnica deverá estar em permanente
reavaliação e mutação. Com isto quero apenas
dizer que se requer uma atitude de abertura da parte de professores
e alunos em relação ao programa e sua implementação.
Este é o sentido da
disciplina de “Pensamento Crítico”, não promovendo
uma atitude de permanente reivindicação e contestação
mas de constante receptividade e abertura à discussão
das
questões, estimulando a confiança mútua. Nada é
pior para uma escola que assuntos tabu ou ideias dogmáticas.
Quanto ao programa, após a fase de lançamento estou pensando
em começar com 3 cursos de dois anos, um de cerâmica, um
de arquitetura e construção e um de design.
Todos os cursos terão uma forte componente ecológica.
O primeiro ano será chamado de básico e será igual
para todos os cursos. Terá uma disciplina de desenho, uma de
composição bidimensional, uma de composição
tridimensional, uma de design digital e uma area de humanidades que
poderá incluir o estudo de línguas. Os cursos serão
divididos a partir do segundo ano que terá uma conotação
intensivamente profissionalizante, atuando tanto quanto possível
no mundo real, com colocação comercial do trabalho executado
na escola.
a. Cerâmica
O “know how” e a experiência dos ceramistas de Cunha
serão a base do programa. Os alunos aprenderão a fazer
o próprio barro, a encontrar os materiais na natureza e na região,
a compor seus próprios esmaltes, a inventar seus métodos,
a construir fornos e entender a sua lógica. A descoberta da autosuficiência
regional no processo da cerâmica será um objetivo primordial.
b. Arquitetura, Construção e Paisagismo
Pretende-se criar um profissional com forte consciência ambiental
que seja capaz de projetar e construir edificações de
pequena dimensão harmoniosamente integradas na envolvente natural,
tanto funcional como visualmente. Será dada ênfase à
pesquisa e utilização dos materiais da região,
nomeadamente o tijolo, a taquara e as madeiras de
reflorestamento. Será solicitada a colaboração
de arquitetos, pedreiros, marceneiros, geólogos e ecologistas
locais. Será incluida também a abordagem da restauração
de imóveis degradados com valor patrimonial. Uma linguagem vernácula,
autosuficiência
energética e contemporaneidade no design serão os principais
parâmetros do curso.
c. Design
Mais do que uma especialização numa área especifica
do design a ideia é um curso polivalente que habilite o profissional
a atuar num leque aberto de áreas: produto, comunicação
impressa, web design. O aluno terá latitude para desenvolver
essas áreas de forma desigual conforme o seu interesse. O enfoque
estará sobre a responsabilidade do designer como modificador
do mundo e transmissor de mensagens que afetam a vida
das pessoas. Também, independentemente do valor da mensagem,
o design incide sobre todas as fontes de material visual gerado pelo
ser humano. Seu valor deverá ter alguma permanência, contrariando
a tendência atual, consumista, de transformar tudo o que
se produz em lixo, tão logo se esgote o objetivo, frequentemente
fútil, para que foi criado. Esta atitude, insustentável,
da sociedade de consumo com crescimento a qualquer preço, esgota
os recursos naturais transformando-os após breve uso em montanhas
de lixo que não conseguimos mais controlar. Por isso mesmo o
curso de design terá uma forte componente de reciclagem de materiais
rejeitados.
Considero essencial a existência de interação entre
os vários cursos através de projetos de colaboração.
Fácil será encontrar coincidências de interesse,
por exemplo, entre cerâmica e arquitetura na construção
de fornos, entre cerâmica e design na área de produto ou
entre design e arquitetura na área de mobiliário.