I. ICCC, Oficina de construção de Noborigama
II. Curso de Cerâmica no SESC-Pompeia:
Expressão e Composição em Barro.
por Alberto Cidraes, Arquiteto, Ceramista, Designer

12 de Agosto a 2 de Dezembro, 3 turmas, Quintas Tarde e noite e Sextas de manhã.
Uma realização SESC, no âmbito das atividades do ICCC,
Instituto Cultural da Cerâmica de Cunha.
1. Declaração de Intenções
O barro é um material abundante na natureza que acompanha a humanidade desde as suas origens. Pode ser usado para modelar formas, pela sua plasticidade, e mantém essas formas por secagem e mais definitivamente por queima.
Em geral quando se ensina cerâmica, o ponto de partida é a raiz cultural e o objetivo a aquisição de habilidade manual para materializar formas de revolução em torno de um eixo vertical produzidas com o auxílio do torno.
A forma oca para conter líquidos, alimentos ou cinzas de cadáveres é um arquétipo cultural que herdámos dos antepassados desde a pré-história, senão por ser a cerâmica a mais antiga das artes, ao menos por ser aquela que por sua natureza físico-química nos chega mais íntegra através dos tempos. Podemos dizer que essa sobrevida dá à cerâmica uma vocação arqueológica.
No entanto o “vaso” (vessel em inglês) não esgota as possibilidades da cerâmica. Sendo o barro um material amorfo sem direções lineares pré-definidas, ele permite, respeitadas algumas peculiaridades, a execução de qualquer tipo de forma e a expressão de qualquer ideia.
No curso que agora se apresenta a intenção é começar por esquecer a riqueza formal da cerâmica, enraízada na cultura humana, e considerar o barro apenas aquele material amorfo e moldável, que pode obedecer solicitações físicas induzidas pela mão. Dessa forma pretende-se estimular o surgimento de uma relação de intimidade entre o praticante e o material através de uma metodologia processual descoberta e inventada em grande parte de forma espontânea pelo próprio aluno.
Numa segunda etapa, após a aquisição dessa intimidade “pré-herança cultural”, pretende-se explorar o conceito de estrutura e composição, executada através de técnicas de colagem e acoplagem. A técnica, geralmente considerada um corpo de conhecimentos de uso genérico, pode e deve fazer parte do processo de criação, variável e adaptável às necessidades e particularidades de cada projeto.
Formas geradas por modelagem livre ou auxiliada por ferramentas como o torno, a extrusora e a laminadora, serão consideradas não como peças em si, mas elementos de composição ou partes constituintes de uma estrutura préviamente planejada através do desenho.
Nesta fase o desenho será um veículo fundamental para a expressão de ideias. O esboço desenhado será estimulado como plano estrutural para a associação espacial de elementos construtivos de uma composição, seja ela abstrata, funcional ou figurativa.
O curso de 16 aulas será dividido em 4 módulos de 4 aulas cada.
No primeiro módulo será desenvolvida a relação espontânea e orgânica com o barro, numa relação de diálogo essencialmente barro-mão para um conhecimento mútuo.
No segundo módulo será desenvolvida a maestria no uso de ferramentas como torno, extrusora e laminadora, para a geração de formas
No terceiro módulo será desenvolvido o projeto através de desenho, e composição através de colagem, acoplagem e encaixe.
No quarto módulo serão exploradas opções de acabamento por tratamento de superfície seja com desenho, pintura, engobes, esmaltes ou texturização.
2. Desenvolvimento
Módulo 1
A primeira ação a ser executada pelos alunos é a AMASSADURA. Através dela aprendemos a domar o material, não em oposição a ele mas tirando partido da sua fluidez para conduzi-lo na direção pretendida.
Serão introduzidos os métodos orientais da cabeça de boi e do caracol, deixando abertura para outros métodos eventualmente conhecidos ou já experimentados pelos alunos.
Em seguida virá o workshop “Barro Primordial”:
Modelagem e interação dinâmica com o barro, sem intervenção de ferramentas e água.
Pretende-se com este workshop, de uma forma direcionada mas experimental, explorar a plasticidade como qualidade primordial do barro. Serão explorados temas como pressão radial, alongamento e figura. O barro será visto como receptor de massagem e incorporador de fantasmas. O objetivo primeiro do workshop será quebrar o gelo entre o participante e o material, ultrapassando a forma tímida como o iniciante em geral se aproxima do barro. Este será encarado como um material dinâmico que permite uma manipulacão ousada.
Exercícios:
a. Transformação radial: De buraco na bola a meia bola oca.
b. As surpresas do alongamento: O barro como chicote.
c. Dialogo e massagem: O rosto humano saindo do barro ou o barro como interlocutor.
Nenhuma ferramenta será utilizada, apenas mãos, olhos, cérebro e barro.
Conceitos:
Na raíz de cada projeto estão as seguintes ideias:
a.Esfera: É forma fundamental na natureza, expressão mais simples do equilíbrio e do movimento contínuo. O Sol, a Lua, rotação, translação, centro, côncavo, convexo, conteúdo e continente.
b.Movimento orgânico: O barro permite a pincelada tridimensional, à semelhança da pintura oriental em nanquim, esta em 2 dimensões, mas ambas executadas sobre uma superfície plana. O barro é lançado sobre uma mesa repetidamente em chicotadas e a metamorfose da forma é observada e conduzida. O objeto evolui segundo linhas caprichosas e casuais como o crescimento de uma planta ou uma espiral de fumaça.
c. O outro: Um material amorfo e multidirecional como o barro permite que através da mão nele se materializem pensamentos e emoções. Acariciamos rostos de pessoas amadas. Se com o mesmo espírito acariciarmos o barro dele poderão brotar rostos com os quais, pela manipulação entraremos em diálogo. Lhes daremos expressão, alegria e tristeza, humildade e explendor. Neles baixará um santo, comunicaremos com o passado, o futuro, a realidade e a fantasia.
Na sequência os alunos serão orientados a aplicar sua própria criatividade elaborando com base no experimentado no Workshop, associando os exercícios ou criando derivativos a partir deles.
Módulo 2
- Centralização no torno e criação de formas com crescente dificuldade no torno.
- Domínio da extrusora para a criação de tubos geométricamente regulares ou orgânicamente irregulares.
- Exercícios de variação de área e expessura na laminadora. Exercícios de gravura em relevo com chapas de cartão e de texturas com tecidos ou outros.
- Modelagem, corte, dobragem, etc., dos elementos obtidos nas técnicas acima.
Módulo 3
- Pequena palestra introdutória sobre composição, relação de elementos e estrutura, planejamento, design, e o papel do desenho.
- Desenvolvimento de temas como, cabeça humana, arquitetura e instrumento de som.
- Técnicas de colagem, acoplagem e encaixe.
Módulo 4
- Aplicação de engobes e desenho em sgraffito.
- Pintura com engobes e óxidos.
- Aplicação de texturas.
- Queima
Observações
O detalhamento do programa acima será finalizado durante a aplicação do menu, em espírito de adaptação ao ambiente, equipamentos e materiais disponíveis.
O objetivo maior é dar aos participantes a possibilidade de se expressar pela cerâmica com maestria e inspiração. Permitir a profissionalização de quem o almejar e dar também abertura àqueles que querem passar pela cerâmica como experiência.
O barro é um material que já viu muitas formas e queimas, mas que pela sua versatilidade ainda tem muito por explorar. Trabalho novo e surpreendente pode sempre surgir.